Mais um foi quase
e voltei a fumar
e sucumbi as palavras,
andei até lendo o velho safado
e até dando umas boas risadas
mas não deixando de me sentir ofendida
com minha velha mania
de tomar tudo por dito para mim.
Ele é por demais igual a você
se escrevesse, seria como te ler
viril demais
impetuoso demais nas palavras.
Esse cara não tem mesmo sensatez
não hesita em esporrar suas verdades
na cara de ninguém.
E eu bem sei,
as coisas são mesmo como descritas
Uma vem, você devora
outra é recordada, você puxa uma.
outras deixam recados,
mandam mensagens...
Mas é da minha natureza repelir isso
enquanto procuro,
como se houvesse que existir por necessidade moral,
o mínimo de romance ali.
Onde não há.
Misturei as tuas paixões às minhas,
e agora amo até o mais improvável.
Mas me peguei aqui, a assumir gostar
de coisas as quais eu jamais me permitiria
e me sinto outra pessoa ao dizer aos outros
que aquilo me agrada.
Mas o pior é que gosto mesmo, e gosto muito.
terça-feira, 11 de junho de 2013
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Clandestina
Acordei meio clandestina. Meio descompassada, meio fora do tom.
Abri os meus olhos, senti-os tão meus, tão dependentes de mim. Quis voltar a
dormir, dormi. Estava atrasada, mas é como se não estivesse.
Levantei-me, andei pela casa, rodopiei, ninguém. Então eu
ecoava ali naquele labirinto vazio. Olhei pra fora, céu cinzento em pleno
verão. Não era eu. Senti vontade de puxar toda aquela camada poeirenta e seca
de ar pra dentro dos pulmões, consumir aquele ambiente externo, tornar-me
livre. Sair correndo nua ali, sem carregar nada, sem sentir que deixei nada pra trás por não haver onde carregar nada mais além de mim, e correr, correr, sem rumo, correr até onde eu pudesse, sem pretensão voltar, exatamente por não ter pra onde voltar. Teria a liberdade presa dentro de mim se atraindo por tudo que pudesse
ser também, liberdade.
Mas ela era mais forte do que eu, fechei a janela.
Pensei no que deveria fazer no dia de hoje, e como se todo o
meu corpo se recusasse fortemente, como ação de auto-defesa, achei que não...
Que EU não devesse fazer tudo aquilo. Que aquilo não me pertencia, aqueles horários,
aquela rotina, aqueles deveres, até aqueles hábitos que eu tomara por meus,
eles eram de outrem. Aquilo não era eu. Estive sendo usurpada. Há outro alguém
vivendo por mim em meu lugar.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Coisa bonita demais dói
Vez ou outra acontece de um vazio imenso me acometer. Um vento gélido soprando no peito, que parece ser feito só de buracos, e dá uma sensação de que aquela ausência desmedida vai me engolir por inteiro, e as mãos suam frio. Os braços se unem em um auto-abraço, tentando diminuir o tamanho do buraco que arde, e os olhos varrem os arredores buscando um algo-que-não-se-sabe-o-quê-ao-certo.
Sabe, desvendei que isso tudo é falta de uma coisa. E que quase tudo ao meu redor é falta de amor.
Hoje me despedi de alguns primos pequenos, que vieram aguardar o nascimento de seu novo irmão em minha casa. Nos últimos dois dias eles trouxeram uma certa alegria aqui pra dentro desse lugar vazio, silencioso e quase inabitado que é o meu próprio lar. Então, hoje, seus pais os vieram buscar, com o novo pupilo, ainda incapaz de desgrudar as pálpebras... A coisa mais angelical e inocente, nos múltiplos sentidos da palavra. Uma pureza que aflora na pele, tão puro e imaculado que dá até medo de tocar.
E ver aquela família ali, bem na minha frente, com laços tão bem estabelecidos de amor. Com aquela proximidade tão grande, aquela vontade tão congruente de estarem perto, de se olharem, cuidarem-se. Amarem-se, sem medida, sem medo. Aquele amor, tão autêntico, tão expresso, tão óbvio que é quase dito indestrutível, imutável e indelével... Me confrontando, me encarando, me pondo às faces que eu não tenho nada daquilo... Que nunca cheguei perto de estar perto de ter algo sequer parecido. Doeu. Mas não de inveja, jamais. Doeu essa dor do vazio. A dor que dá de voltar pra casa depois de um dia bom. A dor da saudade do que nunca foi. Doeu sereno. Doeu bonito, porque aquele amor, aquela cena de uma família comemorando a chegada de mais um membro para amar e ser amado, jamais poderia causar outra sensação que não a de beleza incomensurável.
Sabe, desvendei que isso tudo é falta de uma coisa. E que quase tudo ao meu redor é falta de amor.
Hoje me despedi de alguns primos pequenos, que vieram aguardar o nascimento de seu novo irmão em minha casa. Nos últimos dois dias eles trouxeram uma certa alegria aqui pra dentro desse lugar vazio, silencioso e quase inabitado que é o meu próprio lar. Então, hoje, seus pais os vieram buscar, com o novo pupilo, ainda incapaz de desgrudar as pálpebras... A coisa mais angelical e inocente, nos múltiplos sentidos da palavra. Uma pureza que aflora na pele, tão puro e imaculado que dá até medo de tocar.
E ver aquela família ali, bem na minha frente, com laços tão bem estabelecidos de amor. Com aquela proximidade tão grande, aquela vontade tão congruente de estarem perto, de se olharem, cuidarem-se. Amarem-se, sem medida, sem medo. Aquele amor, tão autêntico, tão expresso, tão óbvio que é quase dito indestrutível, imutável e indelével... Me confrontando, me encarando, me pondo às faces que eu não tenho nada daquilo... Que nunca cheguei perto de estar perto de ter algo sequer parecido. Doeu. Mas não de inveja, jamais. Doeu essa dor do vazio. A dor que dá de voltar pra casa depois de um dia bom. A dor da saudade do que nunca foi. Doeu sereno. Doeu bonito, porque aquele amor, aquela cena de uma família comemorando a chegada de mais um membro para amar e ser amado, jamais poderia causar outra sensação que não a de beleza incomensurável.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Será que alguém no mundo já morreu por incompreensão?
Às vezes acho que vou acabar sufocando e morrendo assim.
Deve ser possível. Viver num mundo em que ninguém entende ou dá alguma
importância para o que você diz, pensa e sente, é de certa forma asfixiante, pra
não dizer completamente. Fico a me perguntar quando pego um coletivo, por
exemplo, se ali, no meio de todas aquelas pessoas solitárias e que evitam umas
as outras como se se odiassem sem sequer se verem, se não existe ali mesmo,
alguém, qualquer um, que pense como eu. Que se incomode como eu. Que surte como
eu. Que queira fugir, desesperadamente, assim como eu. E talvez se ali mesmo,
dentro daquele espaço opressivo e angustiante em que seres humanos ignoram uns
aos outros durante horas sentados lado a lado, uma única pessoa pudesse
simplesmente se comunicar comigo, e me entender, de repente nós duas pudessemos
sanar esse desespero, pudessemos querer ficar.
Talvez eu mesma tenha me ocluído. Enfiado minha cara em meio
à páginas de um bom livro e ignorado o resto do mundo. Mas aí percebo que só
fiz isso porque todos me obrigaram à fazê-lo. Ninguém diz mais nada. Todos
falam, e falam, e falam mais. Mas dizer, coisas que nos façam refletir, coisas
que às vezes nos fazem calar dentro da cabeça todos os outros pensamentos só para
ouvir o que a pessoa tem a dizer, bem... Isso não há mais ninguém que faça. Só
ouço coisas que, pra mim, não fazem muita diferença ouvi-las ou simplesmente
ouvir a mesma música que se repete pela décima vez nos meus fones de ouvido. Há quanto tempo não tenho uma boa discussão?
Há quanto tempo não me calam os pensamentos? Há quanto tempo não me fazem ver o
mundo de outra forma?
Eu sinto falta de uma amizade, uma amizade assim, que fosse
entender, mas não somente entender, que soubesse o que eu quero dizer com tudo
que estou dizendo. Sinto falta de ter alguém pra dizer essas merdas, ao invés
de precisar fazer esse monólogo, e escrever assim, coisa sem futuro.
Só jogar conversa fora me serviria, mas uma boa conversa,
daquelas que não dá vontade de ir embora, uma conversa tão boa que depois dos dois
beijinhos e até logo, você caminha até em casa se sentindo mais leve. Sentindo
que dividiu-se com alguém. Que partilhou teu peso. Que flutuou, deixou de ser
carne e sentidos, e foi só pensamento. Porque quando se é só pensamento nada mais
importa, não importa se você está bem vestido, se você teve um dia bom ou não,
se sua vida vai bem ou não, se você fez as unhas, cortou o cabelo, se vai ter
dinheiro pra sair no fim de semana... Por um momento, um interstício de tempo,
você e outra pessoa se livram do peso do que são, e se encontram uma na outra.
E tudo parece mais leve se dividido com alguém, até mesmo um pensamento.
Mas meus pensamentos tem se amontoado um sobre o outro. E
eles tem pesado, como as bolsas das pessoas que vão em pé no coletivo, e
ninguém que está sentado se dispõe a levá-las, como um favor que se presta sem
querer nada em troca. Tem sido assim comigo. Tenho silenciado a mim mesma, pois
não há ninguém que me ouça. Ah, eu já tive boas pessoas que levavam minha
bagagem quando podiam... E hoje eu simplesmente não as vejo mais, não as
encontro mais.
Às vezes tento, até ensaio falar, mas algumas pessoas não
alcançam o que quero dizer, outras não conseguem mais segurar tanto peso que já
tem sobre si, outras me fazem sentir idiota demais ao abrir a boca, fazem
parecer tudo tão pequeno quando externalizado. Mas ainda há aquelas que
simplesmente viram as costas e saem, sem se importar com o que está sendo dito...
E as que me entendem, bem, aquelas que eu gostaria de ter por perto... Essas
estão em falta. Essas eu procuro todos os dias olhando nos olhos de
desconhecidos e lançando-lhes um sorriso. Procuro nessas pessoas que estão dentro
de um ônibus, de um metrô, de uma sala, tão sós quanto eu. Mas sabe-se lá o que
elas pensam, elas não parecem querer sair daquela nuvem cinzenta e pegajosa que
são seus próprios pensamentos. Não as julgo. Mas procuro, encolerizadamente,
alguém que como eu, precise se desvencilhar desse mundo obscuro e solitário.
quinta-feira, 14 de março de 2013
Algumas vezes sinto como se estivesse ocorrendo uma guerra
aqui dentro. Uma enorme batalha, na qual, eu, luto contra mim mesma. Mas não é
algo consciente, não é algo controlável, e não são dois lados, um à combater o
outro, cada um defendendo um ideal... Na verdade, é mais como se existisse um
monstro gigantesco tentando se libertar, e eu, menor, o prendo, mas não porque
não quero o mesmo que ele, e sim porque tenho medo do que ele possa querer.
Tenho medo que seu desejo vá além do que minha estatura me permite alcançar,
tenho medo de que seus desejos não sejam realizáveis neste mundo que meu
pequeno corpo habita. Tenho medo de soltá-lo e de que ele somente me machuque,
me frustre ainda mais. Eu tenho medo de não conseguir. Então tenho medo de
dizer o que eu, no fundo, acho que quero e depois descobrir que eu nem queria
tanto assim. Eu tenho medo de criar uma outra guerra. Eu tenho medo de falhar.
Tenho tantos medos que me fazem aceitar o agora. Mas não com resignação. O
monstro dentro de mim não aceita o agora. Ele não se contenta com essas
migalhas do que posso ser para o mundo, ele quer que eu seja mais. Ele tem sede
de vida. Ele quer explorar o mundo, ir além. Ele não quer envelhecer... Ele não
quer esperar o que pode acontecer amanhã, porque ele também tem medo, mas o
medo dele é diferente, ele tem medo é de não fazer tudo o que deseja, ele tem
medo é de não ser tudo o que poderia ter sido, ele tem medo de se prender ao
agora. Às vezes ele se acalma, se silencia... Mas sempre algo o desperta, e ele
tenta violentamente se tornar livre. LIVRE. Acho que é só isso o que ele quer
ser, livre. É só isso que lhe falta: liberdade. E ele se debate dentro de mim
em busca disso, tão violentamente, que eu sinto raiva, sinto raiva de tudo, de
todos, da vida, do mundo. Eu sinto raiva e meu corpo todo sofre com isso. Minha
cabeça dói, eu quero gritar, quero deixá-lo sair. Quero que ele jorre como um
jato violento de vômito que meu próprio organismo expulsa para fora de mim. Eu quero deixá-lo fazer o que quiser
de nós dois, eu quero que ele me guie, que ele vença, que haja trégua. Eu quero
a paz. Mas eu sei também, que essa será uma busca sem fim... A paz, ela não
existe, e a liberdade tão pouco. Pois bem, mas eu poderia ser tudo que sonho ser, bastava que eu
estrangulasse o meu já atrofiado lado racional.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Pra 2013;
Tudo que eu queria era paz, e um tempinho pra não pensar.
Eu não precisava apenas de férias comuns, eu precisava de umas férias de tudo. Umas férias de mim, umas férias dessa mente disfórica, cheia, bagunçada. Desses problemas e dessas preocupações recorrentes.
Eu queria uma praia, solitude, um cigarro. Vento que passa e parece varrer por dentro, o coração. E o barulho surdo do mar. Apenas.
Precisava de uma mente vazia e de um oceano a perder de vista, preenchendo o olhar. Aquele barulho do vento batendo nas águas e às desestabilizando. O barulho que faz o interior da gente querer explodir e se misturar ao todo, às miríades de grãos de areia, às gotas incontáveis de água salobra do mar.
Eu queria tirar todo esse peso que faz parecer que o mundo está sobre minhas costas.
Eu preciso me sentir completamente vazia de novo, e ao mesmo tempo sentir que meu interior é infinito.
Eu não precisava apenas de férias comuns, eu precisava de umas férias de tudo. Umas férias de mim, umas férias dessa mente disfórica, cheia, bagunçada. Desses problemas e dessas preocupações recorrentes.
Eu queria uma praia, solitude, um cigarro. Vento que passa e parece varrer por dentro, o coração. E o barulho surdo do mar. Apenas.
Precisava de uma mente vazia e de um oceano a perder de vista, preenchendo o olhar. Aquele barulho do vento batendo nas águas e às desestabilizando. O barulho que faz o interior da gente querer explodir e se misturar ao todo, às miríades de grãos de areia, às gotas incontáveis de água salobra do mar.
Eu queria tirar todo esse peso que faz parecer que o mundo está sobre minhas costas.
Eu preciso me sentir completamente vazia de novo, e ao mesmo tempo sentir que meu interior é infinito.
Do que ficou em 2012;
Pele. Cheiro. Toque. Gosto. Sussurros. Risos. Um carro.
Chuva forte. Vidros embaçados. Filmes não vistos no cine drive in. Rua deserta.
Pixies. Guarda-roupas. Pés nos pés.
Nunca cogitei ser idônea de descrever algo como isso, porque
é inefável, intangível. E aí está o gozo do poder sentir. Sentir
é precioso, só você sente. O sentir é único e individual. Não se repassa, não
se descreve, não se explica e não se repete nunca.
Tem o jeito do vento que bate, leve e úmido, arrepia, entra
por de baixo da saia. E causa a mesma sensação de calafrios de uma febre que
está por findar-se.
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