As coisas andam tão incertas que as palavras não vêm, e se vêm elas nunca mais souberam dizer o que se passa, nem sequer sabem mais o que querem dizer.
Talvez seja isso, talvez o pote esteja tão dessecado que as palavras que saem são brados incompreensíveis e que escapam tão fugazes quanto a disposição revoluta das coisas. Se nesse momento eu pudesse citar algo estático este algo seria a confusão, essa foi a única que se instalou e pôs pra fora, há tempos, toda a ideia do que pudesse ser paz. E ainda por dentro só tem o oco. As coisas foram e vieram tão rápidas, tão coléricas e frequentes que levaram tudo embora, os miolos, as entranhas, as ideias, as palavras... A busca por essas últimas é diária, embora preguiçosa e desconfiada, pois há o medo de buscar e encontrar algo - não se sabe o quê - que se tem ignorado. Tenho ignorado a mim mesma (pode ter sido a única forma de me manter sã). Mas o que são então essas palavras distorcidas que saem pela minha boca através desse rugido? Num momento de total perturbação, num momento extremo em que são exigidas de mim as atitudes mais sábias e amigas, as palavras mais brandas e conselheirescas, as atitudes e os olhares mais amorosos, é isso o que me resta? É isso o que eu sou afinal? Por que eu não consigo sentir nada? Por que eu me sinto tão vazia quanto uma casa tenebrosa em que ninguém quer se abrigar? Uma casca? Um casulo que já foi abandonado? Por que me sinto tão seca quanto um choro que não tem motivo de ser? Por que me sinto mais vazia que um daqueles abraços entre pessoas cheias de mágoas sonegadas? Mais deserta que uma cama onde já se amaram dois amantes, mais estéril que um coração que não sabe amar, mais vaga, mais ríspida, mais... mais nada, menos. Menos do que sempre fui. Povoada por um vazio tão grande que eu nem sei definir por sempre ter em mente coisas cheias. Eu só queria mesmo era me empoleirar em um canto, num auto-abraço, durante horas e lutar contra esse vazio ao qual estou tão apegada.
quinta-feira, 6 de março de 2014
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Toda morte é um acidente
A concentração é uma coisa indiscutivelmente mágica e à ventura. À propósito, já de adianto, o assunto é esse mesmo: ventura. Estava eu imaginando estar concentrada, ou pelo menos aplicando toda a minha força de vontade para tal nos meus estudos, quando leio a seguinte passagem "quando a morte ou invalidez forem acidentes não haverá carência para o respectivo benefício" ora, minha mente vagante tintinou, e que morte não é acidental? Em nome de todos os finados suicidas e prováveis inválidos por causalidade genética, sua total descrença na vida e sua má formação intrauterina foram, por acaso, escolha? Não que eu esteja querendo discutir a lei, mas ainda não consigo conceber uma morte não acidental. Outro dia desses um parente distante morreu, estava em sua própria casa, sozinho, afirma-se que teve um ataque cardíaco, não sei ao certo quantos anos ele tinha mas é provável que tivesse menos que quarenta. Seu pai tem quase uma centena e ainda está vivo! Acho que sua morte não foi natural, assim como sua própria vida, vias de fato, um randômico acidente. Um garoto que morava na mesmo rua que eu, durante minha infância, se envolveu com drogas e levou um tiro, morreu no meio da rua, sua mãe viu seu corpo já sem vida. E dezenas de coisas assim acontecem 24/7. Ninguém começa algo com a certeza absoluta de como vai terminar, e se começa, provavelmente acaba se decepcionando. A verdade é que são muitos números sendo apostados, todo o tempo. O universo tem suas infinitas probabilidades. A entropia pode comprovar. Existir é um acidente. Casualidade. Imprevisto. Morrer também.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Súplica
Me esvazia,
me seca,
tira a balde
tudo que tem aqui
empoçado.
Me seca.
Me preenche,
me transborda,
me afoga
em sentimentos
novos.
Em novos
sentimentos bons.
me seca,
tira a balde
tudo que tem aqui
empoçado.
Me seca.
Me preenche,
me transborda,
me afoga
em sentimentos
novos.
Em novos
sentimentos bons.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
In certeza
Distraída demais pra ser cientista, decidi optar pela
escrita. Eu a escolhi, acho. O que não significa que também fui escolhida por ela, a recíproca não é uma constante em minha vida. O meu problema talvez, e grande solução, seja a incerteza. Tudo pra
mim é incerto. Tenho dois olhos, e parece que cada um deles, solitariamente, vê
o mundo à sua maneira. Não sei se fui criada pra ver amplamente ou
pontualmente, então fico no incerto. Meio vasto, meio nuclear. Vejo claro a
liberdade, e também se ilumina a ideia de uma vida simples: marido no sofá,
filhos correndo pela sala de jantar, e mulher preparando um agrado para todos
na cozinha. Tem-se certamente uma beleza nisso sim, afinal, existe amor em
tudo. O que não consegui explicar ainda foi essa minha devoção às coisas
singelas, desfalecentes, fracas... Me emociono com velas acesas, luz do fim de
tarde adentrando a janela do banheiro e gotas d’água se chocando contra a minha
pele e ricocheteando em gotículas, quase virando vapor, formando um arco-íris no ar úmido,
ah, esses momentos! Mas também tem as teias de aranha, as pétalas, os tecidos
que se rasgam facilmente. Peles delicadas, pessoas frágeis. A fragilidade. Das
pessoas, do tempo, das verdades, das certezas, do amor... Mas então o grande
paradoxo reside nisso, nisso tudo e em mim, claro. Que vendo com dois olhos
discordantes passei a ver meio torto. O que me amedronta nessas afirmações,
teorias, decisões e escolhas, é isso. Passei quase 2 décadas tentando desconstruir todas
as crenças que nos são legadas - a todos nós, não há como fugir - e então, tudo
que menos quero agora, pode parecer lógico, é não construir mais nenhuma. Coisa
que tenho pavor são dogmas. Mas aí está a dúvida que me atormenta: e alguém
vive sem nenhuma certeza?
sábado, 7 de dezembro de 2013
Engraçado como você está sempre pronto para me arrancar toda
a pose, toda a pretensão e esbofetar minha cara, sem premissas. Mas as melhores
pessoas são essas, não são? As que doem profundo. As que mordem forte, pra
deixar a marca, pra levar tudo o que as pertence no mundo. As
melhores pessoas são essas sim, as que te fazem chorar sorrindo. Porque elas te
machucam como machuca o filho que morde o seio da mãe sedento
pelo leite que não sai. É. Essas pessoas buscam. Todas nós buscamos. E às vezes
alguns seios não conseguem alimentar a nossa fome. E dói não ter o que oferecer
para os convidados quando eles chegam na casa que você arrumou tão bem para
recebê-los. Mas eles tem é fome. É fome que eles tem. É fome que você tem. E só o
que eu tenho pra te oferecer é um apetite ainda maior.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Às vezes dá uma moleza nas pernas, uma falta de ar, uma
dorzinha pontiaguda no estômago, como que um anúncio solene de que a alma
precisa descarregar-se. Mas você segura as lágrimas, economiza porque você vai
precisar delas mais tarde. Mas fica, aquele aperto no peito. Fica aquele
zumbido na cabeça. E fica aquela agitação infeliz da alma, o desespero das
coisas que não se pode evitar.
É uma paz angustiada. É um aguardar nem paciente, nem
ansioso, mas um aguardar que gostaria de ser perpétuo, que se consumasse em um
adiar indelével. Você não sabe como, ou quando, mas você sabe que vai
acontecer, e isso é hediondamente doloroso. Só o pensar, o imaginar.
Parece que estamos vivendo sob ameaça constante. No mesmo
momento que tudo parece tão bem, tudo parece estar em sintonia, e que todos já se acostumaram e aceitaram as coisas como elas são... Parece que por
trás, serena e discreta, está sempre uma angústia resguardada. No mesmo instante
que estamos todos inteiros e felizes, estamos todos tristes e despedaçados.
E você me diz que ele chorou. Vocês choraram. Nós choramos.
Até hoje nós choramos, mesmo em meio há tantos risos, e risos sinceros, em
nenhum momento eu fingi estar bem. Mas parece que estar bem é isso. Estar bem é
intrínseco a isso. Estar bem é nunca deixar pra trás o que fomos. É aceitar o
que somos e nunca, nunca nos afastar completamente do que éramos.
O meu momento é de espera
Hoje me prolonguei demais naquele café
Me apego demais à reclusão, é comum
É difícil me concentrar no que eu deveria
Sair do travesseiro dos meus pensamentos
Me desenrolar dos lençóis das minhas reflexões
Eu simplesmente ignoro todos os chamados
e despertadores de divagação
Mas o fato é que
Fiquei ali, assistindo a chuva cair, sozinha
Ninguém por fora
Ninguém por dentro
Tenho estado só.
Mais só do que...
A solidão pura, em essência.
Porque me sei só.
Tenho estado só, universalmente.
Não me acredito mais tendo alguém.
É que a gente sempre quer ter alguém
que dê passos sincronizados aos nossos
Assim como a gente faz, de mãos dadas,
quando crianças...
Sem motivo algum.
E é assim, aparentemente sem motivo,
que a gente cresce
e continua precisando daquilo
Só que metaforicamente.
Mas a solidão ecoa
E é preciso se acostumar.
Me demoro um pouco mais nesse sofrimento
Me prolongo nessa cadeira
Me desenrolo no canto dos pássaros,
satisfeitos como eu com a visita da chuva
Me diminuo
Me planto
Quero brotar
Me apego demais à reclusão, é comum
É difícil me concentrar no que eu deveria
Sair do travesseiro dos meus pensamentos
Me desenrolar dos lençóis das minhas reflexões
Eu simplesmente ignoro todos os chamados
e despertadores de divagação
Mas o fato é que
Fiquei ali, assistindo a chuva cair, sozinha
Ninguém por fora
Ninguém por dentro
Tenho estado só.
Mais só do que...
A solidão pura, em essência.
Porque me sei só.
Tenho estado só, universalmente.
Não me acredito mais tendo alguém.
É que a gente sempre quer ter alguém
que dê passos sincronizados aos nossos
Assim como a gente faz, de mãos dadas,
quando crianças...
Sem motivo algum.
E é assim, aparentemente sem motivo,
que a gente cresce
e continua precisando daquilo
Só que metaforicamente.
Mas a solidão ecoa
E é preciso se acostumar.
Me demoro um pouco mais nesse sofrimento
Me prolongo nessa cadeira
Me desenrolo no canto dos pássaros,
satisfeitos como eu com a visita da chuva
Me diminuo
Me planto
Quero brotar
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