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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Toda morte é um acidente

A concentração é uma coisa indiscutivelmente mágica e à ventura. À propósito, já de adianto, o assunto é esse mesmo: ventura. Estava eu imaginando estar concentrada, ou pelo menos aplicando toda a minha força de vontade para tal nos meus estudos, quando leio a seguinte passagem "quando a morte ou invalidez forem acidentes não haverá carência para o respectivo benefício" ora, minha mente vagante tintinou, e que morte não é acidental? Em nome de todos os finados suicidas e prováveis inválidos por causalidade genética, sua total descrença na vida e sua má formação intrauterina foram, por acaso, escolha? Não que eu esteja querendo discutir a lei, mas ainda não consigo conceber uma morte não acidental. Outro dia desses um parente distante morreu, estava em sua própria casa, sozinho, afirma-se que teve um ataque cardíaco, não sei ao certo quantos anos ele tinha mas é provável que tivesse menos que quarenta. Seu pai tem quase uma centena e ainda está vivo! Acho que sua morte não foi natural, assim como sua própria vida, vias de fato, um randômico acidente. Um garoto que morava na mesmo rua que eu, durante minha infância, se envolveu com drogas e levou um tiro, morreu no meio da rua, sua mãe viu seu corpo já sem vida. E dezenas de coisas assim acontecem 24/7. Ninguém começa algo com a certeza absoluta de como vai terminar, e se começa, provavelmente acaba se decepcionando. A verdade é que são muitos números sendo apostados, todo o tempo. O universo tem suas infinitas probabilidades. A entropia pode comprovar. Existir é um acidente. Casualidade. Imprevisto. Morrer também.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Súplica

Me esvazia,
me seca,
tira a balde
tudo que tem aqui
empoçado.
Me seca.
Me preenche,
me transborda,
me afoga
em sentimentos
novos.
Em novos
sentimentos bons.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

In certeza

Distraída demais pra ser cientista, decidi optar pela escrita. Eu a escolhi, acho. O que não significa que também fui escolhida por ela, a recíproca não é uma constante em minha vida. O meu problema talvez, e grande solução, seja a incerteza. Tudo pra mim é incerto. Tenho dois olhos, e parece que cada um deles, solitariamente, vê o mundo à sua maneira. Não sei se fui criada pra ver amplamente ou pontualmente, então fico no incerto. Meio vasto, meio nuclear. Vejo claro a liberdade, e também se ilumina a ideia de uma vida simples: marido no sofá, filhos correndo pela sala de jantar, e mulher preparando um agrado para todos na cozinha. Tem-se certamente uma beleza nisso sim, afinal, existe amor em tudo. O que não consegui explicar ainda foi essa minha devoção às coisas singelas, desfalecentes, fracas... Me emociono com velas acesas, luz do fim de tarde adentrando a janela do banheiro e gotas d’água se chocando contra a minha pele e ricocheteando em gotículas, quase virando vapor, formando um arco-íris no ar úmido, ah, esses momentos! Mas também tem as teias de aranha, as pétalas, os tecidos que se rasgam facilmente. Peles delicadas, pessoas frágeis. A fragilidade. Das pessoas, do tempo, das verdades, das certezas, do amor... Mas então o grande paradoxo reside nisso, nisso tudo e em mim, claro. Que vendo com dois olhos discordantes passei a ver meio torto. O que me amedronta nessas afirmações, teorias, decisões e escolhas, é isso. Passei quase 2 décadas tentando desconstruir todas as crenças que nos são legadas - a todos nós, não há como fugir - e então, tudo que menos quero agora, pode parecer lógico, é não construir mais nenhuma. Coisa que tenho pavor são dogmas. Mas aí está a dúvida que me atormenta: e alguém vive sem nenhuma certeza?

sábado, 7 de dezembro de 2013

Engraçado como você está sempre pronto para me arrancar toda a pose, toda a pretensão e esbofetar minha cara, sem premissas. Mas as melhores pessoas são essas, não são? As que doem profundo. As que mordem forte, pra deixar a marca, pra levar tudo o que as pertence no mundo. As melhores pessoas são essas sim, as que te fazem chorar sorrindo. Porque elas te machucam como machuca o filho que morde o seio da mãe sedento pelo leite que não sai. É. Essas pessoas buscam. Todas nós buscamos. E às vezes alguns seios não conseguem alimentar a nossa fome. E dói não ter o que oferecer para os convidados quando eles chegam na casa que você arrumou tão bem para recebê-los. Mas eles tem é fome. É fome que eles tem. É fome que você tem. E só o que eu tenho pra te oferecer é um apetite ainda maior.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Às vezes dá uma moleza nas pernas, uma falta de ar, uma dorzinha pontiaguda no estômago, como que um anúncio solene de que a alma precisa descarregar-se. Mas você segura as lágrimas, economiza porque você vai precisar delas mais tarde. Mas fica, aquele aperto no peito. Fica aquele zumbido na cabeça. E fica aquela agitação infeliz da alma, o desespero das coisas que não se pode evitar.
É uma paz angustiada. É um aguardar nem paciente, nem ansioso, mas um aguardar que gostaria de ser perpétuo, que se consumasse em um adiar indelével. Você não sabe como, ou quando, mas você sabe que vai acontecer, e isso é hediondamente doloroso. Só o pensar, o imaginar.
Parece que estamos vivendo sob ameaça constante. No mesmo momento que tudo parece tão bem, tudo parece estar em sintonia, e que todos já se acostumaram e aceitaram as coisas como elas são... Parece que por trás, serena e discreta, está sempre uma angústia resguardada. No mesmo instante que estamos todos inteiros e felizes, estamos todos tristes e despedaçados.
E você me diz que ele chorou. Vocês choraram. Nós choramos. Até hoje nós choramos, mesmo em meio há tantos risos, e risos sinceros, em nenhum momento eu fingi estar bem. Mas parece que estar bem é isso. Estar bem é intrínseco a isso. Estar bem é nunca deixar pra trás o que fomos. É aceitar o que somos e nunca, nunca nos afastar completamente do que éramos.

O meu momento é de espera

Hoje me prolonguei demais naquele café
Me apego demais à reclusão, é comum
É difícil me concentrar no que eu deveria
Sair do travesseiro dos meus pensamentos
Me desenrolar dos lençóis das minhas reflexões
Eu simplesmente ignoro todos os chamados
e despertadores de divagação

Mas o fato é que
Fiquei ali, assistindo a chuva cair, sozinha
Ninguém por fora
Ninguém por dentro
Tenho estado só.
Mais só do que...
A solidão pura, em essência.
Porque me sei só.

Tenho estado só, universalmente.
Não me acredito mais tendo alguém.

É que a gente sempre quer ter alguém
que dê passos sincronizados aos nossos
Assim como a gente faz, de mãos dadas,
quando crianças...
Sem motivo algum.
E é assim, aparentemente sem motivo,
que a gente cresce
e continua precisando daquilo
Só que metaforicamente.

Mas a solidão ecoa
E é preciso se acostumar.
Me demoro um pouco mais nesse sofrimento
Me prolongo nessa cadeira
Me desenrolo no canto dos pássaros,
satisfeitos como eu com a visita da chuva
Me diminuo
Me planto
Quero brotar

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Acho que este texto não deveria ter sido escrito

Sinto frio. E calor.
Já dei três voltas na casa.
O quintal é tão amplo.
E eu já não sei mais onde me encaixo melhor.
Se fico no sol, sinto minha pele queimar.
Se sento-me na sombra, minhas mãos doem por conta do frio.
E eu penso que posso lidar com isso.
Mas não sei o que fazer.
Eu preencho meus dias com as músicas que descobri gostar.
E com os filmes que ficaram pra serem vistos.
Mas eu realmente não sei qual é o próximo passo que devo dar.
Três vasos vazios no corredor,
do lado de fora.
Entro. E por dentro é tão vazio quanto por fora.
E tão frio quanto à sombra.
E eu não tenho o que fazer.
Eu acho que queria estar contigo.
Mas sei que essa não é a solução pra tudo.
O que eu faria ao teu lado?
Se eu não sei mais o que fazer de mim.
Penso que poderia ler os livros que comprei, mas não sinto vontade.
E pra quê? Afinal?
Às vezes me parece que estarei infeliz em qualquer lugar.
E penso em todos os lugares que poderia estar
em todas as coisas que poderia fazer
e eu não quero nenhuma delas.
Não tenho um objetivo pra minha vida.
E eu não sei onde posso encontrar minha paz.
Sei que existem coisas lindas a serem vistas,
e essa música, ela é ótima.
Mas parece que tudo perdeu o sentido de ser.