Tudo que eu queria era paz, e um tempinho pra não pensar.
Eu não precisava apenas de férias comuns, eu precisava de umas férias de tudo. Umas férias de mim, umas férias dessa mente disfórica, cheia, bagunçada. Desses problemas e dessas preocupações recorrentes.
Eu queria uma praia, solitude, um cigarro. Vento que passa e parece varrer por dentro, o coração. E o barulho surdo do mar. Apenas.
Precisava de uma mente vazia e de um oceano a perder de vista, preenchendo o olhar. Aquele barulho do vento batendo nas águas e às desestabilizando. O barulho que faz o interior da gente querer explodir e se misturar ao todo, às miríades de grãos de areia, às gotas incontáveis de água salobra do mar.
Eu queria tirar todo esse peso que faz parecer que o mundo está sobre minhas costas.
Eu preciso me sentir completamente vazia de novo, e ao mesmo tempo sentir que meu interior é infinito.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Do que ficou em 2012;
Pele. Cheiro. Toque. Gosto. Sussurros. Risos. Um carro.
Chuva forte. Vidros embaçados. Filmes não vistos no cine drive in. Rua deserta.
Pixies. Guarda-roupas. Pés nos pés.
Nunca cogitei ser idônea de descrever algo como isso, porque
é inefável, intangível. E aí está o gozo do poder sentir. Sentir
é precioso, só você sente. O sentir é único e individual. Não se repassa, não
se descreve, não se explica e não se repete nunca.
Tem o jeito do vento que bate, leve e úmido, arrepia, entra
por de baixo da saia. E causa a mesma sensação de calafrios de uma febre que
está por findar-se.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Chuva que parece afago
De novo você está só. Sozinha.
Uma pessoa que te lembra um pouco você mesma passa, para, te pede um cigarro, te dedica um sorriso de gratidão e vai embora.
Outra passa, um troque de olhares, efêmeros como as passadas rápidas de alguém que tem pressa numa vida apressada para uma inconcludência, rumo a uma nova pressa que leva sumariamente ao nada.
Mais alguém, e passa...
Ali, vem mais um, te rouba um carinho. Divide contigo porções moderadas de prazer. De ímpeto te faz perder o fôlego, que já lhe falta. Te deixa dormente. Faz estremecer tua carne. Te ocupa um interstício de tempo, e o pensamento. E como fosse ficar, e te dar o que nem se procura ainda mas se quer certamente, passa. E você se vê só, de novo. Um pedaço vazio de papel branco com coisas escritas no verso. Só você e o cigarro que queima tão rápido quanto esses instantes que propõem compor sua vida.
Um trago, o desejo de retê-lo, um sopro e ele se desfez, e foi, e não é mais nada senão uma ideia vaga de que um dia possa ter sido. Como esta ideia. Este pensamento que jorra com tamanha força e fugacidade, como que querendo extravasar esse espaço, hernia, te obrigando a arrancá-lo e lançá-lo em algum lugar. E cessa.
Então é só você e a chuva, tênue, silenciosa, tão delicada que ao tocar sua face parece acariciar, como uma resposta à tudo para não ter pressa. Pra deixar passar. Deixar tocar. Deixar molhar.
E ir embora.
laisser passer
Uma pessoa que te lembra um pouco você mesma passa, para, te pede um cigarro, te dedica um sorriso de gratidão e vai embora.
Outra passa, um troque de olhares, efêmeros como as passadas rápidas de alguém que tem pressa numa vida apressada para uma inconcludência, rumo a uma nova pressa que leva sumariamente ao nada.
Mais alguém, e passa...
Ali, vem mais um, te rouba um carinho. Divide contigo porções moderadas de prazer. De ímpeto te faz perder o fôlego, que já lhe falta. Te deixa dormente. Faz estremecer tua carne. Te ocupa um interstício de tempo, e o pensamento. E como fosse ficar, e te dar o que nem se procura ainda mas se quer certamente, passa. E você se vê só, de novo. Um pedaço vazio de papel branco com coisas escritas no verso. Só você e o cigarro que queima tão rápido quanto esses instantes que propõem compor sua vida.
Um trago, o desejo de retê-lo, um sopro e ele se desfez, e foi, e não é mais nada senão uma ideia vaga de que um dia possa ter sido. Como esta ideia. Este pensamento que jorra com tamanha força e fugacidade, como que querendo extravasar esse espaço, hernia, te obrigando a arrancá-lo e lançá-lo em algum lugar. E cessa.
Então é só você e a chuva, tênue, silenciosa, tão delicada que ao tocar sua face parece acariciar, como uma resposta à tudo para não ter pressa. Pra deixar passar. Deixar tocar. Deixar molhar.
E ir embora.
laisser passer
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Sartre dissertando sobre como tenho passado
"Isso fui em mim, mais depressa ou mais devagar, não fixo nada, deixo correr. A maioria das vezes por não se ligarem a palavras, meus pensamentos permanecem nebulosos. Desenham formas vagas e agradáveis, submergem: esqueço-os imediatamente."
Devaneio litorâneo
Quero dar banho no meu filho de regador...
Eu quero café no bule de alumínio, com tintura branca desbotada.
Eu quero café no bule de alumínio, com tintura branca desbotada.
Sentimento falho, recente, passageiro
Pra ela é como despir-se de si mesma, isso de tentar conhecer e ser conhecida por um novo alguém. É como escalar uma grande montanha, para poder ver do ponto de vista de outrem, o sentindo da grande piada... E que escalada mais exauriente.
E ela estava ali. De pé, sob a mira dos holofotes, exatamente assim, nesta situação. Despida não só de suas vestes, mas tendo encarada a nudez de sua alma. Tendo seus olhos invadidos por um estranho. Ela se sentia o mais vulnerável de todos os seres. Não sabia o que dizer. E quanto mais lhe era dito, mais se calavam as suas próprias palavras.
Talvez, a sua visão limitada e peculiar - vinda de outra montanha distante - a deixasse constrangida. Tinha o seu próprio mundo, era feliz ali. Sentia-se incomodada com a presença de outros. Mas sorria. Porque sorrir é a maneira mais cortês de fazer prevalecer o seu silêncio.
E ela, que nunca fora tão habilidosa assim com as palavras ditas, que jamais tivera a coragem de gritar ao mundo com sua própria voz, ficara naquele momento ainda mais desprovida de palavras. Na mente, um turbilhão de informações. Da reforçada segurança dos lábios, nada transpassava.
Expressar-se, para ela, muitas vezes significava dar à outros o direito de julgá-la. E ela odiava julgamentos. Julgamentos são atos tão unilaterais e verossímeis para serem usados com seres humanos...
E ela estava ali. De pé, sob a mira dos holofotes, exatamente assim, nesta situação. Despida não só de suas vestes, mas tendo encarada a nudez de sua alma. Tendo seus olhos invadidos por um estranho. Ela se sentia o mais vulnerável de todos os seres. Não sabia o que dizer. E quanto mais lhe era dito, mais se calavam as suas próprias palavras.
Talvez, a sua visão limitada e peculiar - vinda de outra montanha distante - a deixasse constrangida. Tinha o seu próprio mundo, era feliz ali. Sentia-se incomodada com a presença de outros. Mas sorria. Porque sorrir é a maneira mais cortês de fazer prevalecer o seu silêncio.
E ela, que nunca fora tão habilidosa assim com as palavras ditas, que jamais tivera a coragem de gritar ao mundo com sua própria voz, ficara naquele momento ainda mais desprovida de palavras. Na mente, um turbilhão de informações. Da reforçada segurança dos lábios, nada transpassava.
Expressar-se, para ela, muitas vezes significava dar à outros o direito de julgá-la. E ela odiava julgamentos. Julgamentos são atos tão unilaterais e verossímeis para serem usados com seres humanos...
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Hoje eu acordei pra dentro. Sabe? Aqueles dias que você não tá pro mundo, aqueles dias... Que você só quer não ver e não ser vista por ninguém, quer deixar os pensamentos escorrerem sem serem interrompidos por perguntas ou conversas triviais. Eu não sei se todos já acordaram assim um dia, mas eu tenho isso com frequência.
Acordei voltada pro meu interior. Querendo debater comigo mesma. Querendo ver beleza nas pequenas coisas, que só são vistas se observadas com minúcia... No silêncio, e na solidão. Hoje eu não queria sair. Eu precisava, sabe, todos os humanos tem obrigações, uma rotina a cumprir, Deus, como isso é um saco! Mas hoje eu não queria dar bom dia pra ninguém, não queria ninguém sendo gentil, hoje eu não queria sair do meu casulo, da minha própria mente. Eu não queria minha atenção pescada por um olhar. Eu queria ficar só, mesmo estando com todo mundo. E ter a minha sensação de única mente pensante amplificada, afinal, a gente nunca pensa que os outros pensam também. Só somos capazes de ouvir os nossos próprios pensamentos e por isso temos um ponto de vista NOSSO do mundo ao redor, e da vida, e de cada mínima coisa que pode ser sentida. Cada um sente de um jeito único, é isso o que realmente diferencia as pessoas umas das outras. Hoje eu só queria sentir o mundo como eu sinto. Sem interferências.
Acordei voltada pro meu interior. Querendo debater comigo mesma. Querendo ver beleza nas pequenas coisas, que só são vistas se observadas com minúcia... No silêncio, e na solidão. Hoje eu não queria sair. Eu precisava, sabe, todos os humanos tem obrigações, uma rotina a cumprir, Deus, como isso é um saco! Mas hoje eu não queria dar bom dia pra ninguém, não queria ninguém sendo gentil, hoje eu não queria sair do meu casulo, da minha própria mente. Eu não queria minha atenção pescada por um olhar. Eu queria ficar só, mesmo estando com todo mundo. E ter a minha sensação de única mente pensante amplificada, afinal, a gente nunca pensa que os outros pensam também. Só somos capazes de ouvir os nossos próprios pensamentos e por isso temos um ponto de vista NOSSO do mundo ao redor, e da vida, e de cada mínima coisa que pode ser sentida. Cada um sente de um jeito único, é isso o que realmente diferencia as pessoas umas das outras. Hoje eu só queria sentir o mundo como eu sinto. Sem interferências.
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