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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Chuva que parece afago

De novo você está só. Sozinha.
Uma pessoa que te lembra um pouco você mesma passa, para, te pede um cigarro, te dedica um sorriso de gratidão e vai embora.
Outra passa, um troque de olhares, efêmeros como as passadas rápidas de alguém que tem pressa numa vida apressada para uma inconcludência, rumo a uma nova pressa que leva sumariamente ao nada.
Mais alguém, e passa...
Ali, vem mais um, te rouba um carinho. Divide contigo porções moderadas de prazer. De ímpeto te faz perder o fôlego, que já lhe falta. Te deixa dormente. Faz estremecer tua carne. Te ocupa um interstício de tempo, e o pensamento. E como fosse ficar, e te dar o que nem se procura ainda mas se quer certamente, passa. E você se vê só, de novo. Um pedaço vazio de papel branco com coisas escritas no verso. Só você e o cigarro que queima tão rápido quanto esses instantes que propõem compor sua vida.
Um trago, o desejo de retê-lo, um sopro e ele se desfez, e foi, e não é mais nada senão uma ideia vaga de que um dia possa ter sido. Como esta ideia. Este pensamento que jorra com tamanha força e fugacidade, como que querendo extravasar esse espaço, hernia, te obrigando a arrancá-lo e lançá-lo em algum lugar. E cessa.
Então é só você e a chuva, tênue, silenciosa, tão delicada que ao tocar sua face parece acariciar, como uma resposta à tudo para não ter pressa. Pra deixar passar. Deixar tocar. Deixar molhar.
E ir embora.


                                      laisser passer

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Sartre dissertando sobre como tenho passado

"Isso fui em mim, mais depressa ou mais devagar, não fixo nada, deixo correr. A maioria das vezes por não se ligarem a palavras, meus pensamentos permanecem nebulosos. Desenham formas vagas e agradáveis, submergem: esqueço-os imediatamente."

Devaneio litorâneo

Quero dar banho no meu filho de regador...

                           Eu quero café no bule de alumínio, com tintura branca desbotada.

Sentimento falho, recente, passageiro

Pra ela é como despir-se de si mesma, isso de tentar conhecer e ser conhecida por um novo alguém. É como escalar uma grande montanha, para poder ver do ponto de vista de outrem, o sentindo da grande piada... E que escalada mais exauriente.
E ela estava ali. De pé, sob a mira dos holofotes, exatamente assim, nesta situação. Despida não só de suas vestes, mas tendo encarada a nudez de sua alma. Tendo seus olhos invadidos por um estranho. Ela se sentia o mais vulnerável de todos os seres. Não sabia o que dizer. E quanto mais lhe era dito, mais se calavam as suas próprias palavras.
Talvez, a sua visão limitada e peculiar - vinda de outra montanha distante - a deixasse constrangida. Tinha o seu próprio mundo, era feliz ali. Sentia-se incomodada com a presença de outros. Mas sorria. Porque sorrir é a maneira mais cortês de fazer prevalecer o seu silêncio.
E ela, que nunca fora tão habilidosa assim com as palavras ditas, que jamais tivera a coragem de gritar ao mundo com sua própria voz, ficara naquele momento ainda mais desprovida de palavras. Na mente, um turbilhão de informações. Da reforçada segurança dos lábios, nada transpassava.
Expressar-se, para ela, muitas vezes significava dar à outros o direito de julgá-la. E ela odiava julgamentos. Julgamentos são atos tão unilaterais e verossímeis para serem usados com seres humanos...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Hoje eu acordei pra dentro. Sabe? Aqueles dias que você não tá pro mundo, aqueles dias... Que você só quer não ver e não ser vista por ninguém, quer deixar os pensamentos escorrerem sem serem interrompidos por perguntas ou conversas triviais. Eu não sei se todos já acordaram assim um dia,  mas eu tenho isso com frequência.
Acordei voltada pro meu interior. Querendo debater comigo mesma. Querendo ver beleza nas pequenas coisas, que só são vistas se observadas com minúcia... No silêncio, e na solidão. Hoje eu não queria sair. Eu precisava, sabe, todos os humanos tem obrigações, uma rotina a cumprir, Deus, como isso é um saco! Mas hoje eu não queria dar bom dia pra ninguém, não queria ninguém sendo gentil, hoje eu não queria sair do meu casulo, da minha própria mente. Eu não queria minha atenção pescada por um olhar. Eu queria ficar só, mesmo estando com todo mundo. E ter a minha sensação de única mente pensante amplificada, afinal, a gente nunca pensa que os outros pensam também. Só somos capazes de ouvir os nossos próprios pensamentos e por isso temos um ponto de vista NOSSO do mundo ao redor, e da vida, e de cada mínima coisa que pode ser sentida. Cada um sente de um jeito único, é isso o que realmente diferencia as pessoas umas das outras. Hoje eu só queria sentir o mundo como eu sinto. Sem interferências.

domingo, 19 de agosto de 2012

Por que não há mais ninguém assim?


Eu aqui, da minha janela, entre um filme, uma música ou um livro, e nada, me pego levantando questões inquietantes ao universo.
Por que nós? Somos tão diferentes, tão absolutamente desiguais.
Por que nós? Por que não podemos estar um ao lado do outro. Por que não podemos nos ajudar? Nós que conhecemos tão bem um ao outro, e ainda não o suficiente, e nunca. Só nós.
Eu, que nenhum outro alguém jamais conheceu, além de nós. Por que manter afastado a coisa que mais me fazia bem em todo esse gigantesco universo? Meu bem, eu queria ser um indivíduo qualquer, que se encontra contigo nos sobe e desces do elevador do teu prédio, e queria apenas conversar com você, e que pudéssemos ter quaisquer divagações. Eu só queria poder ouvir você falar, expor suas idéias. Em todas as viagens eu poderia me manter calada, em todas elas, eu só queria te ouvir, explorar tua mente, tuas idéias... Ir profundo. Ou raso. Ou nem ir. Só ouvir. Nem que fosse uma gargalhada provocada pelo incomodo da falta do que dizer.
Eu só me sinto cansada, saturada dessas pessoas rasas. Dessas mentes pequenas. Eu me sinto sufocada por assuntos que já não suporto mais. Por mentes conflitantes. Por personalidades distorcidas. Gente que quer a todo o custo ser melhor, sendo o pior.
Você é meu refúgio quando tudo e todos nesse mundo me fazem descrer. Meu esconderijo na antiga sebe. Eu sou Sofia, e você o meu filósofo. Você é o lugar que eu chamaria de lar no mundo. É a quem recorro, mesmo sem dirigir-lhe a palavra. Você é o meu mestre, o que mantem o meu interesse pela vida. É como se todos estivessem no fundo da pelagem do coelho e apenas nós dois na extremidade, vendo toda a beleza do universo. É egoísta. É preconceituoso. Mas é como se apenas nós pudéssemos ter a visão mais bela do pico de uma montanha, e você foi quem me levou até lá.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Amar já está muito mainstream

Preciso de alguém pra encher de carinho,
de beijinho,
de mimo,
pra despejar todo o meu amor,
pra nunca causar dor.

Preciso de alguém pra olhar nos olhos,
ver o mar,
e me acalmar.

Me sentir no meu lugar no mundo.
O único em que eu desejaria estar,
de todo o universo,
meu berço.
Meu canto,
meu acalanto.

Alguém que eu aninharia no meu colo
como o filho que nunca tive.
Alguém para quem eu daria o meu melhor.
Essa tal parte de mim, que já até esqueci de como é.

O ser para o qual eu arrancaria meu coração
e deixaria em suas mãos,
caso ele decidisse me deixar.

Eu quero mais que amar.
Cansei de amar.
Eu quero dar amor!
Preciso de alguém que apenas precise de mim.